terça-feira, 24 de agosto de 2010

O MARANHÃO COM TODO GÁS: PARA QUEM?

Arquivo


O documentário “Maranhão 66”, produzido pelo cineasta Glauber Rocha na posse do então governador José Sarney, é uma importante peça histórica para a análise do cenário presente.

No seu discurso inaugural, Sarney apresentava-se como a catapulta do progresso, prometendo tirar o povo do atraso e da miséria marcantes na era vitorinista.

Empossado governador, Sarney criou a Lei de Terras, favorecendo o latifúndio e a violência no campo, ao desagregar centenas de trabalhadores rurais e expulsá-los de suas terras pelos novos proprietários e grileiros do Maranhão.

Nos anos 1980 começou a implantação dos projetos mínero-metalúrgicos. Vieram a Alumar e a Vale (ex-Rio Doce), junto com muita propaganda e promessas de milhares de empregos para desenvolver o estado. Iniciou-se o ciclo dos enclaves econômicos com fortes impactos no meio ambiente.

Agora, anuncia-se descoberta de uma gigantesca reserva de gás natural em Capinzal do Norte. “É meia Bolívia”, proclamou o milionário Eike Batista, ao anunciar o novo milagre maranhense. Vez por outra criam-se mirabolantes pirotecnias em promessa de grandes investimentos aqui.

Nos primeiros mandatos de Roseana Sarney (PFL) no governo, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) veio ao Maranhão inaugurar o famigerado Pólo de Confecções de Rosário, que deixou um rastro de destruição na vida de centenas de pequenos trabalhadores na região do Munim.

Ora é uma fábrica de roupas, ora um projeto de irrigação, ora uma refinaria de petróleo e agora “meia Bolívia” de gás natural.

Dos anos 1980 para cá, o Maranhão sempre ocupou as manchetes nacionais com os piores indicadores econômicos e sociais do Brasil. As promessas de desenvolvimento do nosso estado descarrilaram nos trilhos da Vale ou derreteram nas caldeiras da Alumar.

Passados 40 e tantos anos, a cena maranhense não muda. Viajando por qualquer trecho desta terra fantasiosa observa-se o retrato de uma existência ainda primitiva das casas de palha e taipa na beira da estrada, espremidas entre as cercas dos latifúndios e o asfalto.

O Maranhão que produz alumínio e exporta minério de ferro, o Maranhão que tem um dos melhores portos do mundo (o Itaqui), o Maranhão que tem um centro de lançamento de foguetes em Alcântara, o Maranhão que está prestes a refinar petróleo, o Maranhão que tem “meia Bolívia” de gás natural ainda não conseguiu sequer acabar com as casas de palha e taipa.

Nem o barro abundante nas nossas terras foi transformado em tijolos e telhas, uma tecnologia simplória se comparada ao refino de petróleo, transporte de minério e produção de gás.

Grande parte dos maranhenses não domina a tecnologia básica da sobrevivência – manejar um talher ou uma colher. Imagine um mause de computador.
Vive-se aqui um atraso tecnológico primário, fruto de um retrocesso político e econômico programado para dar certo para uns poucos e tudo errado para a maioria.

Ninguém imagina Eike Batista, um capitalista visceral, vindo ao desconhecido Capinzal do Norte gerar desenvolvimento e distribuição de renda aos maranhenses.

O gás vai turbinar a riqueza de meia dúzia de empreiteiros e negociantes acostumados às mamatas do Palácio dos Leões. Nada mais a esperar.

Escrito pelo jornalista e professor Ed Wilson - blogdoedwilson.blogspot.com

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